Entre a porta daquele antigo cômodo empoeirado e a minha posição atual depois que eu passei por ela me revelou um universo totalmente distinto. O que era desespero agora virou obscuro. É estranho. É como se a porta me teletransportasse para uma realidade paralela. Estava louco para sair logo de lá, mas aqui me passa uma energia espiritual curiosa. O que estava todo empoeirado e encoberto de teias de aranha onde eu estava antes agora está perfeitamente limpo. Porém sem iluminação. O que era agitação agora é apenas pacificidade em excesso, que me deixa um pouco arrepiado. Melhor seguir em frente.
Caminho por aquele corredor. Apenas eu, a solidão, a mochila que eu carrego e o silêncio. Passos lentos, barulhos permeiam o local. Mas não há nada a frente. É apenas minha cabeça. Minha mente latejando de preocupação, incerteza, insegurança em meio à escuridão daquele local recém descoberto. E de todo esse acontecimento. Isso está me matando, meus pensamentos estão palpitando e queimando em confusão. Não quero que nada disso seja real. Por que aconteceria algo assim comigo? A obscuridade é mais uma barreira invisível que impede minha progressão para resolver os enigmas que - por algum motivo - eu preciso resolvê-los. Apenas as vozes me mandam. É sempre assim. Minha alma me ordena e se não a obedeço, minha mente me condena. Já pensei isso muitas vezes. Eu só queria às vezes queria não ter entrado naquele pequeno buraco na parede na sala da diretora Johane.
Pelo o menos, aparentemente cheguei aqui há tempo. A carta dizia tudo corretamente, e aparentemente aqui estou. No lugar certo, na hora certa. Interminável corredor. Nada mais do que um desprovido de iluminação esse corredor, da qual foi construído de madeira. Parece uma construção antiga. Olho para os lados. Nenhuma porta. Papéis da paredes com desenhos de flores. Nada mais do que quadros. Quadros curiosos. Estão todos tortos de uma maneira estranha. Ambos os lados direito e esquerdo do corredor têm quadros desalinhados, um de frente com o outro. Á cada quadro, um está torto para a direita e o outro para a esquerda. E há no total oito deles. E eles completam um desenho. Uma pintura. Parece que cada quadro tem um fragmento dessa pintura. Não sei o que é, porque estão distantes um do outro. Mas por que alguém dividiria uma pintura em vários pedaços e as colocaria em vários quadros? Enfim...
Finalmente chego ao final do corredor. Uma única porta. Um corredor que dá acesso á somente uma porta. Isso é ridículo. Quem arquitetou isso? OK, preciso parar de pensar em detalhes desnecessários.
Ótimo. Somente ótimo. A porta está trancada. Estou no horário certo e isso poderia me acontecer logo agora. Checo meu mapa que encontrei no depósito de alimentos e vejo que, mesmo com as instruções que recebi, estou completamente sem rumo. Essa porta provavelmente deve estar emperrada devido a poeira e oxidação. Mas esse corredor me parece perfeitamente limpo e bem cuidado. Ao contrário da sala anterior. E se o próximo cômodo também for limpo, ou sujo? Isso está muito estranho. Entretanto, pensando bem, isso tudo está muito estranho, e um cômodo limpo seguido de um completamente sujo e abandonado é o menos estranho de tudo.
De qualquer maneira, estou ofegante e cansado. Minhas botas estão me matando, meu cabelo cheio de pó. Preciso me sentar um pouco. Por outro lado, preciso chegar ao terceiro andar o mais rápido possível, antes que eles voltem. Mas como, se não há outro caminho? Só tomarei um pouco de fôlego. Espero que no próximo cômodo não aconteça o mesmo que aconteceu na sala de química. Mas essa porta destrancada é prioridade. O relógio continua correndo, não posso continuar aqui, tenho que destrancá-la imediatamente.
Minha lanterna está fraca. Vou perder a hora. E se a carta estiver errada? Espero que não. E por que eu não peguei as malditas pilhas que estavam no ralo? Esse corredor está me deixando perturbado. A escassez de luz, seu comprimento, os quadros estão me transmitindo uma energia assustadora. É melhor eu ir embora logo ou estarei em estado de transe. Esses quadros... eles têm algo de estranho. Parece que são eles os transmissores de todo esse estranho sinal que estou recebendo diretamente na minha alma. Essa energia bizarra. E esse ruído. Talvez eu deveria examiná-los. Me levanto, me dirijo até cada um deles. Tento juntá-los e formar uma imagem completa. Talvez estejam fora de ordem. Isso é estranho, é como se fosse uma mensagem secreta, um quebra-cabeça... Talvez seja isso mesmo! Um quebra cabeça precisa ter suas peças reordenadas e conectadas para que possam fazer sentido. É isso que esses quadros são. O que estou fazendo? Provavelmente sejam só quadros. Mas o que eu tenho a perder? Talvez tenha algo interessante neles. Talvez é a palavra. Preciso vê-los de mais perto. Quem sabe tenha detalhes escondidos ou muito pequenos. Olho cada um deles. Ainda não consigo formar uma imagem. E se eu alinhá-los? Por que eu estou fazendo tudo isso, afinal? Eu só quero destrancar a porta. Será essa a função desses quadros? Eu ainda não sei o que fazer. Preciso de dicas. Deve haver alguma.
Não há nada no teto? Nas paredes? Nos próprios quadros? Na porta? Na sala anterior? Não... eu não quero voltar lá. Talvez eu deva somente voltar e enfiar aquela espada na porta e tentar abri-la. Provavelmente eu apenas morra de fome, preso aqui nesse lugar infernal. Meu destino deve ser esse, caminhar rumo à solução de enigmas e acabar trancado em corredores sugadores da paz das almas. É um bom nome. Estou fadado a viver assim? Não quero isso. Preciso solucionar isso imediatamente.
Arrisco mais algumas tentativas de formar uma imagem completa, mas meu cérebro simplesmente não consegue processar nada. Esses oito quadros, distantes um do outro... talvez eu só seja muito estúpido para notar a obviedade de uma provável resposta ou dica que aí está. E se não houver nada? Melhor eu tentar. Mais do que eu já estou. Desisto de tentar formar uma figura, tento ver detalhes dos quadros. Tiro eles do lugar para ver se há algo atrás, vejo-os de perto, alinho-os... faço isso com cada um deles. Nada deu certo.
Subitamente, me lembrei que há algo em minha mochila. Como poderia me esquecer? O papel que encontrei entre os livros com os números para abrir a sala da administração com as anotações "alinhamento: 7x1". Finalmente, a dica não estava no corredor. Estava comigo. Mas o que seria 7x1? Pode ser que sete quadros devam estar alinhados e um desalinhado para que a porta seja aberta. Faço isso. Ela não se abre. Nem um barulho. Tento abri-la. Nada. Só tenho mais uma opção, da qual restam minhas últimas esperanças antes do meu horário esgotar. Realizar o contrário: Desalinhar sete quadros e alinhar um. O fiz.
Ouço um barulho. Não é a da porta sendo destrancada. Parece um som vindo do outro lado da porta trancada. Tento abri-la. Continua fechada. Me esgoto de frustrações e solto um longo suspiro. Não há nada mais a fazer? É isso? Tudo isso acaba aqui? Fui derrotado por uma porta? Ficarei preso aqui nesta escuridão desse corredor quando as pilhas da lanterna se descarregarem por completo? Alinhei todos esses quadros para supostamente destrancar uma passagem da qual eu não tenho como chegar porque continuo trancado. Estou completamente fadado a decepções. Sem mais esperanças, aparentemente. Estou completamente dominado pelo descomprometimento e pessimismo. Não é a toa, mas já passei o suficiente para chegar até aqui e ser bloqueado por uma porta.
Todavia, uma luz forte surge e vejo no chão minha sombra. Estava de costas para a porta trancada que, ao me virar, está aberta.